Não tenho o hábito de ver o correio todos os dias, e não me refiro ao electrónico. Sei que só vou encontrar facturas e publicidade, embora faça questão de ter um autocolante daqueles que diz algo parecido com publicidade não endereçada aqui não. Admito que possa ser uma mensagem algo confusa e pouco clara, por isso não me chateio muito, pego nos folhetos e enfio nas caixas da vizinhança. O que me leva a pensar que recebo publicidades de pichelaria porque existe algum anormal que faz o mesmo…Na vistoria semanal à caixa reparo num envelope demasiado pequeno para ser da agere mas também um pouco mais distinto dos folhetos. Retiro-o e numa escrita manual apresenta-se como dirigido ao senhor morador. Entro, percorro os três andares (mentira, foi o elevador que os percorreu) e já em casa abro-o. Uma carta, também ela escrita à mão, numa caligrafia redonda, daquela redonda de quem aprendeu a escrever aos 47 anos. Começo a ler,
Moro na vizinhança, por não ter conseguido falar consigo pessoalmente, estou deixando algumas informações importantes.
Uma introdução daquelas que nos obriga a continuar. Quem é esta pessoa que me escreve e o que de tão importante terá para me dizer, tendo em conta que se deu ao trabalho de me deixar uma carta já que não conseguiu falar pessoalmente comigo.
Participo de uma obra realizada por voluntários em mais de 200 países. Em todos eles convidamos as pessoas a beneficiar-se de um programa que as ajuda a descobrir respostas a perguntas importantes, como: Porque envelhecemos e morremos? Qual é o objectivo da vida? Como se pode encontrar a verdadeira felicidade?
Ora bem, participa de uma obra…começo a torcer o nariz. Mas, de súbito o inesperado acontece. Anos a atormentar-me com reflexões infrutíferas sobre a vida, a morte e mesmo a felicidade, e, sem que nada o fizesse prever, as respostas batem-me literalmente à porta. Anos de suplício, de sofrimento, de desgaste mental, de noites em branco e finalmente a luz, as respostas! Porém, quando a esmola é grande…continuo,
Participamos dessa actividade porque estamos genuinamente interessados em nossos vizinhos. Nosso trabalho não tem fins comerciais.
Espero em breve conseguir falar pessoalmente consigo. Sinta-se à vontade para entrar em contacto connosco através do endereço abaixo.
Respeitosamente, (…)
Oh alegria! Oh felicidade! Finalmente acabaram-se as pequenas conversas de circunstância sobre o tempo com os vizinhos quando ocasionalmente partilhamos os elevadores. Agora, sempre que nos encontrarmos podemos discutir o verdadeiro sentido da vida. Obrigado por me terem contactado, obrigado por se interessarem pelo bem-estar da comunidade de lamaçães. Não sei se terei tempo para entrar em contacto mas espero sinceramente uma nova visita aqui ao meu tasco.
Adenda: qual velho do Restelo, confesso que as ditas novas tecnologias desferiram a machadada final no correio tradicional, o que é uma pena, sabe bem receber cartas. Temática que merece algo mais que uma simples adenda.