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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Altas horas

Noite calma em corpo agitado. É a esta hora que mais sinto o tempo consumir-me. Noite calma em corpo agitado. O silêncio é só aparente, dentro de mim oiço inúmeras vozes que ecoam, que evocam preocupações e medos. E o tempo parece tão curto. A noite calma acorda em manhã preguiçosa mas o corpo continua agitado

quarta-feira, 4 de junho de 2008

"Como se diz? Cheiro a Verão, acho" ou consequências de ter pouco para fazer

A que cheira o Verão? O que sentem no ar? Que recordações percorrem a vossa mente? Hoje está (esteve) uma noite de quase Verão. Não é pelo calor, pois o cobertor ainda é obrigado a fazer companhia ao indefeso lençol, nem pelo céu limpo, provavelmente o dia vai ser chuvoso, como os últimos noventa e oito, mas hoje voltei a sentir a nostalgia. Timidamente e sem o vigor e a pontualidade de outros tempos, o nosso estimado Sol já começa a preparar o ambiente. A ideia de andar só de t-shirt já começa a fazer mais sentido. Inspiro fundo e perco-me em corredores vagos e ténues. Flores, cheiros fortes e adocicados, as tardes passadas no quintal, a alcatifa liberta uma essência mais abafada, mais intensa nesta altura, a antiga casa, a certeza de não ter nada para fazer – o não fazer nada no resto do ano é um fugir às responsabilidades, nesta época é uma actividade – acordar com a segurança que está imenso calor e que a manhã já passou, planos incertos, sempre alterados no último instante. Esplanadas, noites longas apimentadas com imensas conversas sobre tudo e sobre nada, cerveja gelada. O constante suor, aquela humidade que não nos deixa secar depois do duche (dois por dia no mínimo). Bichos, de toda a espécie. Fechar os olhos e olhar para dentro, como diz a minha avó, na cadeira da varanda, enquanto se ouvem, cada vez mais ao longe, os miúdos a jogar futebol no ringue. Desesperar porque não consigo alcançar a forma de ter a casa fresca e liberta de moscas. Ficar na cama. Acompanhado. Encontros e desencontros. Gerês. Ir. Caminhadas até ao Good Jesus. Quem vem para o Benfica? Implorar por um pouco de frio, está tanto calor que não se aguenta! Reminiscências, memórias, recordações, rotinas…não passam disso, trazidas numa brisa suave enquanto conduzia pelas ruas da cidade. O carro, o cheiro característico do seu interior, a música…esta viagem provoca em mim um torpor e uma letargia antecipadas capazes de porem à prova a resistência física e psicológica de qualquer ser, típica dos meses que se aproximam. Consequentemente, todos estes estímulos despertam um desejo de recuar no tempo, não de o fazer avançar até Agosto. É saudade, parece-me. A convicção de não querer fazer nada, a sensação de falta de força para alterar rumos. Ainda bem que os ponteiros do relógio do Maior só avançam, não recuam, caso contrário há muito que me tinha perdido na ilusão e sonolência de brumas passadas.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Serendipidade ou reflexões sobre a vida em geral e pormenores em particular

A solução não era óbvia, a resposta para o problema tardava em aparecer. Preciso de reflectir, e rapidamente, caso contrário o paciente morre, terá pensado House quando se dirigiu para a cama. Deitado, absorto na imensidão do seu saber contemplou o desenho estampado na almofada que até então tinha servido de apoio à sua caixa craniana. Uma flor de pétalas vermelhas e centro amarelo. Uma flor. Claro! É uma alergia! Assim se resolveu mais um intrigante e difícil caso, a partir de um brilhante insight do médico mais querido dos portugueses.

Segundo reza a história, Isaac Newton tinha acabado de entrar naquela primeira fase de sono em que ouvimos as vozes muito ao longe e já não distinguimos o sonho da realidade - o que não era de admirar visto que era Primavera (naquela altura na Primavera não chovia) e o senhor estava confortavelmente encostado ao tronco de uma macieira cuja frondosa copa proporcionava uma agradável sombra que não só impedia os raios solares de queimarem as pernas do branquinho Isaac como também aliciava as pálpebras a juntarem-se – quando, num acto provocatório a bela árvore deixa cair um dos seus filhos precisamente no topo da cabeça do seu hóspede provisório. De volta à realidade e com uma pequena dor na parte mais arredondada do seu corpo (era magrinho, não tinha barriga) Isaac responde com um palavrão e um correctivo pontapé na base do tronco, ideia que não se revelou de génio pois estava descalço e uma acção destas ainda dói. Enquanto caminhava de volta para casa para pôr gelo na cabeça e no pé (era um bocado mariquinhas aqui o nosso amigo), por entre uma série de impropérios, Isaac questionou-se “mas porque razão a maçã caiu e não flutuou?” (análises à urina feitas posteriormente confirmaram positivo para consumo de cannabis e derivados) e o resto já todos sabem. Gravidade, leis, contas, complicações.

O que têm em comum estas duas histórias para além de serem escritas por mim? Serendipidade. Termo criado em 1754 por Horace Walpole, define os acontecimentos que misturam a sorte com a sagacidade. O facto da maçã ter caído na cabeça do Newton foi um acaso, um feliz acontecimento (ou não dirá o crânio magoado), uma eventualidade a que todos os que dormem debaixo de uma macieira estão sujeitos. Mas só alguém preparado para dar um significado à efeméride é que desenvolve uma teoria da gravidade a partir de uma queda de uma maçã. Muito bonito, dirá o atento leitor. E tem razão. Se pensarmos em todos os acontecimentos da nossa vida faz muito mais sentido. Quantos passam por nós sem percebemos o que querem dizer? Empreender buscas é necessário, porém só será eficaz se estivermos atentos a tudo o que nos rodeia. As respostas que tanto procuramos podem estar a uma maçã de distância. Tenho a convicção (é bom ter destas coisas) de que nada acontece por acaso, só consigo comparar tudo isto com aquelas montagens de peças de dominó seguidinhas, em que basta um toque para desencadear uma mega reacção. As nossas vidas não são mais que um esquema desses, só que a uma escala maior do que o que está inscrito no Guinness (o livro, não a cerveja). Se tudo tem uma razão de existir, um significado faz sentido pensar nos detalhes, nos pormenores, nos mais pequenos e insignificantes acontecimentos, na sorte, como uma parte do jogo pois como diria Pasteur “o acaso favorece apenas as mentes preparadas”. Contemplar em excesso degenera em passividade. O que é que isto quer dizer? O que posso retirar deste acontecimento? Impormos perguntas à nossa massa cinzenta é uma boa forma de a manter activa. E quem sabe se não surge uma nova teoria sobre a origem e evolução da formiga vermelha africana? Posto isto, vou-me dirigir para o leito, já vi 5 vezes o Euronews e começa a amanhecer. Vai trabalhar pá, exclamarão alguns. Eu atribuo outro sentido.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Metamorfose 2.0

Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto.

Permaneceu de costas, que eram duras como uma couraça, e, erguendo um pouco a cabeça, conseguiu ver a saliência do seu grande ventre castanho, dividido em nítidas ondulações.

«Ena pá, o que terá acontecido?», pensou ele. «Será que foi do marisco que comi ontem ao jantar?». Gregor, caixeiro-viajante de profissão, era o sustento da família. «Isto não me fica nada em caminho, já está a amanhecer e eu tenho onde estar», continuou absorto em devaneios oníricos, «estou tão cansado, não me apetece nada levantar, até porque esta carapaça ainda é pesada…vou dormir só mais um bocadinho…»”

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Enfim...vou falecer ali para o lado.

Não tinha de acabar assim. Bem sabes que te tentei ajudar, não podes negar. Não foi de uma forma simpática, é certo, mas tens de admitir que não és propriamente atraente ao toque. Tentei mostrar-te o caminho da liberdade. Não era bom para nenhum de nós a tua estadia cá em casa. Passaste o dia todo escondida, a evitar-me. Durante a noite, já com muito menos paciência voltei a conduzir-te para a rua. Insististe em voar louca e desesperadamente, batendo contra todas as paredes. Quando fizeste a tua última pausa no candeeiro soube o que tinha de fazer. Não é da minha natureza optar pela via mais fácil, nem tão pouco queria o teu mal, mas o teu sofrimento era notório. Com um golpe certeiro acabei com a tua miséria. Não resististe, foi rápido, também devido à fragilidade e ao cansaço. Terminou assim a curta vida da mosca gigante, sem glória, atirada para a varanda, depois de uma vassourada mortal.

domingo, 27 de abril de 2008

Numa televisão perto de si

- Por mim coloca-se de parte a ideia do António. Não me interpretes mal, mas acho que é muito arriscado. É demasiado diferente.

É só mais uns meses e acaba, pensou António, do alto dos seus 187 centímetros. Desde que chegara à empresa ainda não tinha encontrado o seu espaço, o que acabava por ser natural visto que era um mero licenciado. Definitivamente, não encontrava forma de se impor, nem às suas ideias. Uma após a outra eram categoricamente rejeitadas sempre com o epíteto de diferentes, inovadoras demais, radicais ou fora do contexto, típico de inexperientes, como já lhe tinha feito questão de salientar Bárbara, a directora do departamento. Esta tinha sido a última proposta que apresentara, jurou para si pela alminha da sua avozinha. Doravante anuiria com a cabeça, concordaria com tudo o que lhe dissessem ou propusessem, excepto, claro, as missivas sexuais para encontros escaldantes na arrecadação de limpeza que a secretária do director do departamento financeiro insistia em enviar, apenas com o olhar. O seu namoro tinha perfeito 7 anos há uma semana e António orgulhava-se de nunca ter olhado, se quer, de uma forma mais provocatória para quem quer que fosse. Às vezes, até para a dona do seu coração se esquecia de olhar. Como era possível negarem uma ideia tão brilhante? Acabara o curso com uma média arrebatadora, polvilhada de elogios e mérito, lera tudo o que lhe recomendavam e ainda mais, o seu curriculum vitae, modelo europass, deixava qualquer um insuflado de inveja. Iludido com a perspectiva de trabalhar numa multi-nacional, aceitou este lugar, em detrimento de um outro numa empresa de distribuição. Mas a verdade era demasiado dura para ser…verdade. Seria tão fácil revolucionar a publicidade nesta área…até porque já era tempo de alguém o fazer. Como detesto esta cascavel, desabafou para os seus botões. Desde que ali chegara, Bárbara tinha-se encarregue pessoalmente de lhe infernizar a vida. Afinal ela é que era a Directora do Departamento de Marketing, e não se lembrara de pedir mais um colaborador para a sua equipa. O departamento de recursos humanos deve ter acedido a alguma cunha, só pode. Ainda por cima não sabe estar calado, aqui o chico-esperto, sempre com a mania que sabe, que leu os livros. Eu também li, eu também estudei e acabei o meu curso, há 17 anos atrás, quando era mais difícil. Ainda o ano passado participei numas jornadas, em Praga. Que cidade tão linda…quase nem tive tempo para ver as conferências. Pode saber muito de teoria, mas que sabe de prática? Nunca trabalhou nisto! Se até aqui as minhas fórmulas têm resultado, não vai ser agora que se vai mudar. Muito menos com ideias tão ridículas vindas de alguém tão novo.

- Pois é António, peço imensa desculpa, como lhe disse não é nada pessoa, porém acho que devemos manter a tendência e o padrão de mercado. O cliente já está habituado e gosta assim. Conseguimos passar a mensagem. Desta vez quero mais raparigas vestidas de branco a dançar. Arranjem-me uma música simples e festiva, de um grupo feminino desconhecido. Estou a conseguir visualizar…esperem…é isso! As raparigas vestidas de branco caminham por um vale verdejante ao som da música estúpida ao mesmo tempo que vão construindo uma muralha! Sim…isso…depois começam a surgir, do alto da colina outras raparigas vestidas de vermelho, também elas muito contentes, caminhando em direcção à fortaleza construída! A seguir, passa para um plano delas todas juntas a cantar e a dançar, como se fosse tudo uma grande festa! Ah, e não se esqueçam dos confetis! Queremos que as nossas mulheres sintam como é agradável este período do mês! Que dizem?

Os restantes três elementos presentes na sala acenaram afirmativamente com a cabeça e saíram o mais rápido possível para se rirem de forma alarve.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Convicções fortes

Depois do incidente prometeu a si mesmo que não voltaria a usar a t-shirt que tinha comprado na Natura e que por coincidência envergava no momento. Save the Nature, feel the life dizia. Tudo bem que a abelha não sabia ler e, por norma, não distingue defensores da Natureza do resto da malta, mas que sabia onde picar, isso sabia.

domingo, 13 de abril de 2008

Parabéns mamã

Começou por ser um pedido de ajuda. Desesperado, arrastava-se pelas divisões da casa reclamando atenção, ao mesmo tempo que dirigia e fixava os seus profundos olhos pretos suplicantes em quem passava. Demasiado absortos nos seus mundos, embrenhados em pensamentos e ocupados com tarefas do quotidiano, ninguém correspondeu ao olhar, ao pedido de auxílio.

Bastava alguém levantar a cabeça, largar o próprio campo gravitacional e arrumar o egocentrismo para evitar a tragédia que, fatidicamente, se começava a desenhar. Como tal teimava em não acontecer, sucumbiu num grito de revolta que marcou o fim do sofrimento e a escolha pela solução mais fácil.

Contrariando todos os ensinamentos, Fredy, o cão salsicha aliviou-se no chão da cozinha para espanto e indignação de todos.