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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Manias de um excêntrico temperamental

Como começou? Talvez tenha sido com uma pequena fuga de água que lhe permitia atingir temperaturas estonteantes, ao ponto de ter que parar na auto-estrada. Claro que esta doença fugia ao seu controlo, não o posso culpar. Acontece. O mau feitio é que já não acontece. O não obedecer já é uma constante. O vidro de trás do lado direito não abre nem fecha, ou melhor, vai abrindo à revelia do botão, deslizando pelas borrachas até provocar uma ligeira corrente de ar, um friozinho que incomoda dentro do carro, quando conduzo a velocidade elevada (mas sempre dentro dos limites…do próprio carro). Para o fechar tenho que puxá-lo à lá old school, uma mão de cada lado e cá vai disto para cima outra vez. A porta de trás do lado contrário ao vidro manhoso não abre. E desta vez é mesmo não abre. Não há manhas nem truques. Simplesmente o fecho deixou de funcionar, e ainda bem que não morreu no modo aberto. O tecto de abrir viu toda esta insubordinação passar incólume e também se demitiu de funções, com uma agravante – abrir tudo bem, sim senhor, mas fechar já não é com sua excelência. Embora possa parecer divertido andar com o tecto de abrir corrido em dias de calor, por esta altura não é nada agradável. Mesmo. Pelo meio isto. O alarme dispara sempre que eu entro. Pronto, exagero de quem escreve emocionado. O alarme dispara sempre que se abre a porta do condutor, o que, curiosamente, é algo frequente. Para nem falar no leitor de cd´s que só os lê nas primeiras terças feiras de dois em dois meses.
Até aqui, admito que com algum desconforto, conseguia sobreviver. Em dias regados com boa disposição até encontrava alguma piada nestas artimanhas. Porém para sua excelência de passo acelerado e olhar altivo não era suficiente. Não. Necessita fazer jus ao apelido de temperamental. Como? Pelo mais básico. Brindar-me a toda a hora com a incerteza. Aproximar-me tenso, abrir o carro, desligar o alarme à sexta tentativa, sentar e respirar fundo. O momento que marcará o rumo do dia – chave na ignição, primeiro rodar. O ansiar, a expectativa, a dúvida. E o drama, já agora. Segundo rodar e…nada. Absolutamente nada. Um ligeiro estalido proveniente do mais recôndito, do mais fundo do motor. Não me apetece andar. E eu que faço? Engato em quinta, empurro um pouco para a frente e para trás – um leve baloiçar como um brinquedo de criança – e espero que resulte. Por vezes sei que fica satisfeito só por me ver fazer estas figuras no estacionamento. Outras, como aconteceu à dois dias, não arreda pé, literalmente, e eu como só preciso novamente dele no domingo não lhe ligo, desprezo-o e mantenho-o ao alcance do orvalho que cai implacavelmente. Domingo lá terei que o empurrar rua abaixo para tentar impor alguma autoridade, há muito perdida.
Sempre que oiço falar em carjacking penso, inevitavelmente, no azar que os senhores teriam se tentassem isso com o meu (está visto que não me pertence). Aliás, penso que esta seria uma novidade neste ramo – eu é que impingia o carro aos supostos assaltantes. Soubessem eles do mau feitio e fugiam, a sete pés.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A lei de Murphy só é de Murphy porque eu não nasci primeiro

Há dois anos que conduzo, com muito gosto, o meu jipinho. Excepto uma pequena fuga da bomba da água que lhe permitia atingir temperaturas dignas de estrelar um ovinho no capot, nunca teve nada de mais. Pequenas manias perfeitamente controláveis. No fundo, não passa de uma gaja – se estou mais de um dia sem o ver, o alarme não desliga à primeira, nem segunda, nem terceira, se opto, num acto de altruísmo ímpar, por levar mais alguém comigo, os vidros não abrem ou os cd´s simplesmente não são lidos. É um carro com personalidade, que se assume como dono do seu dono e que sabe a importância que tem para mim. Nunca o tratei mal, não o deixo morrer de sede, não o arranho, não o obrigo a longas viagens nem altas rotações. Nunca me deixou ficar mal nem me trocou (ainda que involuntariamente) por outro. Também, já há sensivelmente um mês que não faço nada. Consumo compromissos profissionais (orientar o estágio na faculdade e pagar propinas), socio-afectivos (vulgo, minis, PES e namorada, não por esta ordem) e culturais (cinema). Hoje, segunda, por volta das 9.30, inicio o meu estágio. Tudo de bom para ti, dirá o amigo leitor, com mais ou menos cinismo ou interesse. O que sucede? Numa demonstração de carácter temperamental, o meu bólide decide ter esta conversa comigo, em plena via rápida, sentido Green Vile – Braga, na presença de terceiros (sabe que detesto discussões em público):
- Então amanhã precisas de mim à séria…
- Sim companheiro, dava jeito, o estágio ainda fica a 20km de casa!
- Hum, tá bem tá. Por acaso não reparaste a semana toda que eu não andava a pegar à primeira pois não?
- Pois, sim, acho eu. Mas acabavas sempre por pegar sem problemas…
- Claro…olha, vou só acender aqui umas luzinhas no painel, ok?
- Então? Qué´isso??
- Não sei, não sou mecânico. Mas sei que não me fico por aqui, vou deixar de desenvolver, por muito que aceleres ou reduzas não passarei dos 80km/h.
- Acho que ainda conseguimos chegar a Braga…
- Não consegues não porque vou muito simplesmente deixar de trabalhar em plena via-rápida, obrigando os teus amigos a empurrar-me até à próxima saída, que, coincidência, é a rotunda do Horly. Só para ficarem aí os 6 (ainda por cima venho sobrelotado), trajados, ao lado do Motel onde, dizem, se pode ver estrelas, por vinte beijinhos.
- Tu queres ver?? Olha que isto não me fica de caminho…e agora?
- Agora telefonas para a seguradora e eu vou de reboque passear.
- E eu?
- Tu não vens de reboque, óbvio. Desenrasca-te que eu ´tou doentinho e preciso de descansar.